quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Mariazinha tinha um carneirinho
Mas seu carneirinho era doente e raquítico
Seu carneirinho frágil como orvalho
Seu carneirinho invejado por vizinhos.

Um dia, roubaram o carneirinho de Mariazinha
E Mariazinha chorou noite e dia por seu companheiro amável e querido
Havia-o perdido.

O pai de Mariazinha, comprou-lhe outro carneiro, o mais parecido possível com seu antecessor.

Mariazinha esperneou e chorou
Jogou-se no chão
Jogou terra na cara
Rasgou suas roupas
Queria seu carneirinho 1.0, não o simulacro bagaceiro.

Com o tempo Mariazinha habituou-se
Aprendeu a rir das estripulias do carneirinho 2.0
Tomou por certo, todas as noites, dar-lhe um beijinho e desejar-lhe bom sono.
Dividiu a primeira desilusão amorosa com o amigo embaixo de uma frondosa painera
Abraçou-o quando sentiu-se triste.
Começou a amar o carneirinho 2.0, tanto quanto ou mais que amara o carneirinho 1.0

Os carneirinhos precisam de cuidados
De quem os alimente
De quem cuide de seus aposentos para dormir
De quem lhes banhe
De quem limpe seus dejetos.

Mariazinha, depois de certa idade, matou o carneirinho 2.0
E fez dele um belo assado para o aniversário do pai.
Não importou o desabafo, a risada, o carinho, o laço.
Não importou nada: seu pai arrotara
Não importou nada: estavam todos de barriga cheia dos momentos que o carneirinho 2.0 deixara de pastar para ficar ao lado de sua amiga.

Para essa lenta e penosa digestão? Engov.

Ferida aberta que sangra, que lateja, que coça

Ferida aberta por ti, por mim, por desconhecidas, por amigos

Ferida aberta que não sara, sem emplastro de Brás Cubas

Ferida aberta tosca, sem regra gramatical, sem a elegância pedante de Paulicéia Desvairada

Ferida aberta arrogante, quieta

Ferida aberta como flor, mas sem cheiro
Ferida aberta como flor, mas sem pétala
Ferida aberta como flor, mas sem caule
Ferida aberta como flor trocada de vaso, múltiplas vezes
Ferida aberta sem proposito: nada além dela mesma

Ferida aberta que verte em palavras e versos

Ferida aberta
Ferida aberta

Não quero cura pra minha ferida aberta
Quero flor que não murche em contato com o mertiolate.
Quero companhia pra arder, pra sangrar, pra latejar, pra coçar.

Do contrário não é ferida, é terapia.
Do contrário não é ferida, é cicatriz
Do contrário não é ferida, é consolo pro inconsolável.
O contrário de ferida, não a cura, mas a lepra insensível.

Ferida aberta de dia e de noite
É ferida pra ser sentida
Pra ser brindada
Pra ser honrada
De preferência, longe do olhar do farmacêutico.

Ferida aberta que sangra, que lateja, que coça.



Corre em meu corpo, feito eletricidade, o teu perverso registro em minha pele

Quando te escrevi linhas dizendo que  abre aspas vou anular o registro do teu corpo no cartório fecha aspas
Falava a mim
Avisando-te de minha intenção
Não estava mentindo
Estava como aqueles caras engraçados com bandeirolas nas mãos, 
fazendo nada além de marcar o caminho do pouso para o piloto na cabine

Não tenho as respostas prontas.
Não sou arquivista e ainda não encontrei tua certidão
Ou talvez você a tenha comido vorazmente
Pra registrar-se de modo diferente

Eu também sinto falta de um não sei bem o quê
E como poderia não sentir
Perdi minhas mais belas conquistas
Minhas mais promissoras possibilidades
Aquela luz que não me iluminava, mas que servira como farol ao marinheiro

Eu te grito isso
Eu te mostro isso

Mas falamos em línguas diferentes
Você não me entende e eu não te entendo
Eu não te entendo, eu te sinto

Sinto tuas profundas angústias, tuas tristezas, teus amores, teus ardores.

E todas essas intensidades que não entendo mas que sinto
Me fazem querer-te perto, dentro
Dentro do meu abraço

E todas as vezes que preferes te calar, eu sinto o peso do teu silêncio
Todas as vezes que me falas sem tradução simultânea eu sinto as interpretações
Todas as vezes que tu abre a boca para vibrar tuas pregas vocais
Eu sinto tuas emoções

E enquanto eu sentir
Eu ouvirei as palavras que não entendo
E compartilharei de tuas emoções
Esta é a honraria que dedicas a mim.

E eu, suporto a honra?


Queria ter a genialidade de Pablo Neruda quando confessou seu amor sóbrio por seu cão falecido.

Estou no limiar da frieza e da queimadura: ambas machucam.
Estou no lado de fora de mim: não interiorizo
Estou cambaleando pela rua: podre de sóbria
Estou sempre sozinha com minhas várias: no meio da multidão
Estou caindo, caindo, caindo: nomeio multidão
Irritantemente devagar
Caindo pra fora de mim, pra fora do que devo
Pra dentro apenas do que posso: nada
Pra fora daquilo que quero: tudo

Mas o tudo é uma imagem na água, que o mero pingo faz tremer
Um pingo infantil e pequeno, sem poder de fogo nem de água
Tremula todas as minhas cordas muito esticadas
Esticadas o suficiente pra não fazerem melodia
Não fazerem ritmo, não serem agradáveis aos ouvidos
Minhas cordas estão esticadas, soltando estridências pelo ar

Ninguém as quer ouvir
Ninguém as suporta sem sentir aflição nos dentes

Este é o preço a me pagar, que não fora estipulado por mim.
Não conheço as leis fiscais: sei que livros são isentos de impostos em seu fabrico, mas que lucra-se na sua logística.

Eu não me reajusto conforme a inflação.

Permaneço na prateleira,
E assim que tirar meu nome do Serasa e providenciar um cartão de crédito
Me compro e me tiro da prateleira dessa grocery store bagaceira

Para me ouvir ranger, gritar, na minha profunda sonoridade
As estridências que ninguém suporta ouvir.


Pra onde vai tudo aquilo que não consigo escrever?
Pra qual território distante viajam minhas palavras quando olho no fundo de tuas meninas, repetindo como mantra, a beleza dos teus olhos?
Eles são a morada de meninas bonitas, meninas cativantes, meninas tímidas.
Talvez elas guardem consigo uma bolsa pequena carregada nas costas, onde guardam travessamente as palavras que teus olhos me furtam.
Xucra
Xucra
Xucra
Xucra
Xucra
Xucra
Xucra
Xucra
Xucra
Xucra
Xucra
Xucra
Xucra sem ctrl+c
Xucra
Xucra
Xucra
Xucra
Xucra
Xucra
Xucra
Xucra
Xucra sem ctrl+v

Xucra eu
Eu xucra:
Quando não souber pelo que me chamar, quando eu te irritar
Saiba que sou xucra
Mas que em nada isso interfere na minha capacidade de sentir
De evadir
De transbordar
De extrapolar os meus e os teus poros.
Faz apenas que quando eu xucra contigo me chocar
Me senta culpada
Simplesmente por ser Xucra. 

Para uma Proto Poesia

Projeto sem nenhum horizonte em alvo
Sem metas modulantes
Sem objetivos objetivos
Apenas como caminho percorrido de poesiar
De expurgar de si para si
De outro para outro
Toda a complexidade do Universo dentro de sua autora
Não para resolver algo, não para pôr questões
Mas para trazer, à luz da língua, toda a ignorância de quem tem
Alma afoita de poeta
Peito pesado de guerreiro
Coração ardente de amante
Cuidados à minúcias de esposa
Inquietações de filósofo peripatético
Selvageria de canibal

De quem não sabe ser nada além de intensidade
De quem está por aprender a amar
Mas que o sofre por sentir, em cada fibra
De quem se apaixona
De quem fala mais do que devia
Mas não fala o indispensável

Sem a disciplina de estoica que me seria indispensável
Sem temperança
Só com possibilidades em aberto
Com o corpo por escrever
A quem quiser ler.

Ou não.