terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Será que estava maluca e tudo aquilo não era real? Parte 1

A escrita apreende a sensação indizível.
A escrita torna suportável o terrível
Terrível o corriqueiro
Maravilhoso o despercebido
Escrever é escolha
Escolher é necessário para seguir em frente.

Tínhamos saído da faculdade e ido até o metrô a pé. Embora meu transporte saia de dentro do campus, pela companhia e pelos papos sobre política e filosofia, decidi ir até o metrô e de lá, pegar o ônibus. Chegando próxima a parada, percebi que devido ao nosso passo lento, a condução das 22:20 h já havia passado: teria de esperar o próximo, às 23:20 h. Ver meus colegas subirem a passarela e ficar ali sozinha me apertou o peito, de uma forma peculiar, como se algo fosse acontecer. Bairro universitário costuma ser violento, ter muitos assaltos e pensar sobre certamente causava agonia. Esqueço.
Sento no banco da parada, à beira da rodovia federal 116. Carros e caminhões passam velozmente deslocando o ar e estremecendo a estrutura de metal. Conjecturo se o ônibus não atrasara sua saída, se ainda é possível pegá-lo. Reviro atônita os bolsos atrás de um cigarro. Maravilha! Carteira vazia e meu isqueiro amarelo provavelmente ficou com algum de meus colegas. Teria de aguentar aquela espera sem minha sagrada nicotina. Lá longe, no fim escuro da rodovia, via aquele quadrado metálico mover-se nas sombras, com luzes no alto que indicavam algum tipo de letreiro. Meu bus! De pé e quase no meio fio, espero ansiosa pela aproximação da caixa mágica de metal que me levaria para casa. Mas são dois? Tem mais... Vários quadrados idênticos se movem, chegando perto, percebo que são caminhões com letreiros luminosos, indicando o nome e contato para a transportadora. Tiro o óculos e o limpo, a sujeira deve ter feito eu enxergar mal. Sento-me de novo e  começo a pensar no ônibus que perdi. Tremo de frio, estou parcamente vestida e venta muito na beira da BR. Meu corpo treme inteiro e sento-me encolhida na parada, talvez reagindo inconscientemente ao frio. Um homem se aproxima de bicicleta, carrega uma mochila nas costas e tem um semblante pardo e cansado. A proximidade de sua bicicleta vermelha e a minha solidão na parada me assustam e meus braços formigam em resposta. O coração vai á boca. Ele passa diante da parada e me fita os olhos, fundo o suficiente para que me doesse o peito...e passa reto. Eu preciso ir embora, não posso ficar aqui!
Uma freada brusca rouba minha atenção: um carro breca na pista, e meu peito dói com o solavanco que meu coração dá. A dormência do braço, o tremor de frio e a dor aguda no peito fazem com que eu perceba que estava infartando.
O movimento de carros se torna intenso na BR, mas meus olhos estão turvos, como se existisse uma névoa fina que me privasse de ver os contornos com nitidez. Só enxergo as luzes dos veículos, que  não consigo discernir se são caminhões, carros ou ônibus. Percebo que posso perder a condução, já que não consigo mais reconhecer os tipos de veículos, salvo quando estão muito próximos. Os carros passam a mil, próximos ao ponto, e a cada um que chega perto, sinto o desgoverno de seu motorista e enxergo todos eles se chocando contra a parada e me matando. Os trabalhadores do pólo industrial próximo passam de bicicleta, me olhando, e em cada um deles, prevejo uma arma na casaca e um latrocínio a me vitimar em potencial. O pavor toma conta de mim e preciso sair correndo deste lugar. Penso em retornar para a Universidade. Traço em minha cabeça um plano: volto à Ulbra, passo no hospital universitário para controlar meu infarto galopante, durmo nos bancos do saguão de algum prédio e vou para casa pela manhã. Decido agir. Mas como volto para o campus? Tento pensar no trajeto - que consiste em voltar pelo mesmo caminho pelo qual viera, uma rua reta à 6 minutos do campus – mas não consigo saber como ir pra lá. Me apavoro. Não sei voltar! Não sei fazer o caminho de 6 minutos que percorro a 2 anos!  Calma...Calma! Retoma o controle e traça uma rota de onde tu ta até a Ulbra....ONDE EU ESTOU? O pensamento é desolador. Não sabia onde estava. O peito volta a doer e me curvo no banco da parada, certa de estar próxima da morte.
Olho a rodovia e tudo parece irreal, como se estivesse olhando uma tela viva. As formas parecem distantes e com contornos cálidos,  envoltas por uma bruma que amplia apenas as luzes distantes e flutuantes dos faróis indiscerníveis. ESTOU INFARTANDO...MINHA MÃE IANSÃ, ME DESCULPE QUALQUER FALHA...ME AUXILIE NESSE MOMENTO!
Levanto a cabeça tonta e vejo a estação de trem do outro lado.

PORRA! O DILAN!
 Lembro-me de meu grande amigo que me descrevera um episódio muito similar, dentro do metrô. Ele me contava da vez que pensou estar tendo um ataque dentro do vagão, a tal ponto que desceu e ligou para a mãe, técnica em Enfermagem, para pedir-lhe socorro pois “estava tendo um AVC”. Foi a sua primeira crise de síndrome do pânico.
Será? Será que estava maluca e tudo aquilo não era real?



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A expressão compenetrada
Não é treinada, escapa na respiração dos poros
Entra, esconde, pinta o caos de nevoeiro
Que meus olhos não mostram:
Eu tenho o mundo dentro de mim
E dentro dele, há outros tantos que só eu conheço

Céus borrados por nuvens dançantes
Cores que jorram
Raios que invadem o sol
Fogo que corta o céu
Os astros orbitam meu peito e aceleram a circulação
Dilatam pupilas e expandem brônquios defeituosos
Pele que inflama o pêlo que arrepia

Meus mundos confusos de heterogêneos tons
Bagunceiros e desordenados
Se arrumar, não me perco
Se intervier, perde a paciência
Perde a intimidade
E fica aquela sensação: uma falta de não sei bem o quê
Angustia sem nome

Tentativas externas de ordenar
As meninas dos meus olhos vestiram-se de pernas e friezas
Escondendo o caos
Preservando a bagunça
Afastando-a das curiosas
Desde então, durmo acompanhada
Acordo só
Mantenho-me melodiosamente desgrenhada

Sou casa desordenada
Minha casa, minha desordem
A minha morada é múltipla
De mins.