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Nada

Nada não é tudo

Mas já é algo

E se for muito

Principalmente vários muitos

Acaba virando tudo

E o tudo torna-se pouco.

Nada pode ser tudo.
Tudo será sempre nada.

Sonho de uma noite de quarta-feira

Vermes parecidos com larvas de mosquitos insistem em grudar em minhas coxas como sanguessugas. Uma por vez. Tiro a uma, gruda a outra. O negrume do filete do tubo digestivo (ou o que suponho ser o tubo digestivo) do pequeno animal é envolvido  por transparência gelatinosa em contraste com a alvura anêmica da minha coxa. Penso na insossidade da cor de minha pele como efeito da presença parasitária. Sempre que tiro um verme, outro gruda.
tire sua cara dos meus olhos

tire já
antes que eu só tenha a tua cara para olhar
tire já.
encontros com outras são finais sem começo
encontros comigo são começos sem final
desencontros são pontes

Casa Amiga

De uma noite de quinta.

Enxergava o Fábio com seu sorriso esplendoroso, acompanhado do costumeiro abraço que enlaça o corpo num único braço e traz ao peito. Abraço quente, apertado. Abraço que faz sentir-se em casa amiga. Olhei fundo nos olhos dele e disse que estava com saudade.

Digo isso desde meses atrás, quando ainda encontrava-o frequentemente.
"- Já tô com saudades!"
"- Ai linda! tu vai ir visitar eu e as gurias!"
Abraço de casa amiga.

Foi um sonho simples e pequeno cuja ação pratiquei em vigília.
Acordar e perceber a verossimilhança amiudou meu peito. Saudades de seu abraço de casa amiga. Não de qualquer outro abraço de casa amiga, mas daquele abraço, daquela casa, daquele amigo.
Saudade é um choro que se chora seco.

Epifania

Deitada naquela pedra fria, ela soube que era a mulher mais solitária do mundo. Desaparecera o som motorizado do Uber. Silenciou. Não levantou. Permaneceu ouvindo seu soluço próximo e os escapamentos, os gritos loucos da noite, a vida que passava atrás das grades. A casa tão bela, espaçosa e opulenta serviu aos deleites oculares. Em seus cômodos hospedaram-se espalhafatosas e carnavalescas purpurinas roxas. Brilharam teimosamente nas roupas de cama, banheiros plantosos e chãos plantares. Brilharam em seu corpo e no corpo opulento de Nanda. Torcendo talvez o não tão opulento nariz para o trabalho de tirá-las antes das 7 da manhã. Não apareceria brilhosa no café da manhã de aniversário com a namorada e o filho, especialmente do glitter alheio. E fora. Após perguntar contatos para as redes antissociais, fora. Após pequenas ansiedades com o desaparecimento da chave, fora. Após sucessivas tentativas de chamar o aplicativo de transporte, fora. Após encontrar-se no corpo de uma desconhecida,…

Viaduto

terra doída rachada ardida
Sob os pés de fissurados calcanhares jaz terra ardida
Solo de pernas deitadas em feridas
acocoradas na merda dobrando a esquina
Não é possível transferir a linha
pra baixo até vai mas jamais pára acima
Os trabalhadores perderam a hora certa de dormir a narina
Sete e meia da manhã pisam na grama minha
terra doída rachada ardida
ardido meu pranto de cimento
recolho em baixo do vento
Pedaços e milhares, pares e pés, atormento
Diminuem o olho pois tem documento
Tem fone de ouvido teto e intento
O doutor não vê o grão dos olhos dos que tão no relento
Chuva pesada inunda a rua transborda excremento
Somos ponto de contato
vergonha de fato
caída no esquecimento
terra doída rachada ardida
rachando e abrindo
escurecendo e engolindo pras entranhas da terra
voltamos ao primórdio quando barro água terra corpo e luz dançavam por um momento
Mas o filhotinho do papai cobriu impiedosamente o cimento de gélida água inverno
Outros tantos anteriores vem, rebento
Há tanto tempo