domingo, 7 de maio de 2017




O mesmo-adverso bizarro ou Da Esperança.

Disse para parar de filosofar.
-Não posso mais ouvir isso! Onde estão as tuas opiniões? Você só sabe escapar.
Que injustiça! Levara alguns anos para entender o mínimo dos pensamentos anteriores. Construí com eles um abrigo para os dias cansativos e noites insones. Remoía-me ao perceber que as questões vem exaustivamente sendo colocadas com novas molduras em outros mesmos tempos nossos. E pasmei. Ora, como poderia parar?
-Você e seus autores tem resposta pra tudo.
É o que acontece com as mesmas perguntas. O meu original- meio plágio, meio irreal - escrevi naquelas folhas bonitinhas, com linhas vermelhas e joaninhas no rodapé.
- Ai que lindo! Deixa eu postar uma foto dessa poesia.
E não me leu, ou leu e não me viu, ou viu e não me reconheceu pois ali eu estava rearranjada em meus elementos. Ali estava toda a pólvora ensacada fragilmente em tramados de penas. Guardastes no roupeiro para que as demais frequentadoras do teu corpo não me vissem. E deixou de entender.
- Não posso ouvir mais isso! Onde estão as tuas opiniões? Você só sabe escapar.
O tempo é uma máquina de fabricar palavras tortas. Mas como entenderia minhas palavras riscadas no grito se nem ao menos entendes a clareza dos dizeres de meus olhos? E comecei de pouco a pouco a não saber mais o que falar: queria comungar o que  tinha de mais precioso, mas isso não fez sentido e fui sentindo cada vez mais no peito sentido o gosto da língua, amargo e fino. Começando lentamente a ser consumidas pelas amenidades. Falando como desconhecidas no elevador. Os poucos e parcos minutos que corriam viraram eternidade.  Eternizaram. Meus autores ajudaram.

O Reverso ou o Oposto complementar chato pra caralho.

Um revés. O oposto. A outra margem. Seus contornos conversam com os meus. Mato-me na chatice não do dito, mas do não dito. Tá,reconheço a primeira pessoa que insiste em aparecer e minha inabilidade em fazê-la desaparecer. Tá, eu me sinto meio deslocada e despersonalizada sendo posta em um táxi depois de todo esse suor. Tá, trinta e cinco reais é um alto preço pelo serviço de transporte. Tá barato. Barato despir, beijar e gozar. Mas se paga. Não o táxi. Se pega. Não a voz. Se pernas.  Paga- se o barulho que se espera esvaziar das glândulas ansiosas. Eu sou toda ansiedade, menos a glandular. Tenho a pele ansiosa, a língua voraz que confunde e desbaratina. Você não aguenta. O seu não aguentar custa trinta e cinco reais. Se aguentasse, seria mais caro. Seriam as suas horas sem hóstias desgostosas, mas principalmente os seus ouvidos: em suas frágeis cartilagens não cabem as necessidades primeiras. Tá. Te incomoda não chegar a lugar nenhum? Entendo. Sim, o lance tá de pé e tu pode pagar o táxi se preferir,  não me incomodo. Não há o que discutir se é mármore, pois não tem poros. Você não absorve, não deixa -se misturar. Eu tenho uma porção de tintas e livros, de papéis avulsos e de cadernos enumerados. Tava tudo tão certo. As mesmas linhas, tu seca e eu brisa. Espelho, reflexo de ponta cabeça nas linhas parecidas. Os contornos eram exercidos no mesmo molde. Sim, posso conversar até amanhã. Podemos multiplicar o silêncio e o nada e neles comungar, como a rua que circunda um parque: ninguém pisa na grama, e a rua tem no mínimo três direções possíveis. E tu te afastas para não molhar os pés na grama orvalhada, como que temerosa de pisar na bosta. Podemos. Podámos. Mas você insiste nesse telefone, insiste em ligar para o primeiro número de ponto de taxí vinte e quatro horas fornecido pelo google para não pisar na merda. Relaxa, tudo está como previstes ou até menos oneroso.
Trinta e cinco reais.
Um café é mais barato, mas implica correr o perigo de se emendar na conversa além da própria intenção, além da própria glândula. É barato caro deixar-se para criar no novo e híbrido que dissipa na porta do taxí. Mas não se paga, se cansa. Não se pega, evade-se. Não se abre nada além de glândulas e pernas. Não tenho dinheiro suficiente para pagar o aluguel do teu tempo, tenho menos ainda intenção unívoca de venéreas partes veneráveis se não forem montáveis, desmontáveis, remontáveis. Tu só se apresenta em peças e eu devoro corpos às multidões, mas sempre inteiros. Lambo os dedos no barato caro de ouvir, falar, misturar, fazer alquimia com os desejos. Junto com as partes, selecionadas como se fossem as únicas consideradas válidas, tu me apresentas um acoplamento: não é uma parte, mas  integra teu conjunto. O taxista.
Você me paga trinta e cinco reais para que eu me cale.
E eu pago, eu pego, eu pernas.
Eu te pago pra pegar nas pernas das tuas palavras. Eu te pego para que pagues não apenas as pernas e as coxas, mas a cuca fundida e fodida que tu não entendes. Eu te emperno toda a vez que vais escorregando nas palavras amputadas, talvez pra te driblar e gorar tua aposta: pegar as pernas ilesas e depositá-las na lata do lixo. Eu pago com moedas de ouro nietzschinianas pela esmola que tu deposita na caixa da igreja, financiamento de boquete em padre na zona, mas que ninguém sabe. Pensei numa aplicação de baixo risco pra pagar, pois tuas palavras mancas cabem numa aplicação dessas, mas não paguei, não peguei, não pernei. Risco é o cacete. Ou é inteira intensa sob meus dedos ardilosos em extorquir a controvérsia e derrete comigo, ou paga para que eu vá pisar na bosta sozinha.
E eu pago,
Eu pego,
Eu pernas cruzadas em suporte ao rascunho de todas as minhas milhares que queriam a ti se apresentar antes, durante e depois de abrir-te, mas tu só tinhas as pernas para negociar.
Desculpe, eu ainda não peguei o ritmo, o timming. Eu nunca sei a  hora certa de partir: sempre pago para ficar um pouco mais suspensa nas palavras, e acabo indo embora tarde demais, após o último ônibus. Só me sobra fechar as pernas das palavras e pegar um táxi. Eu já entendi. Você paga. Dá trinta e cinco a corrida.

terça-feira, 14 de março de 2017

Não queria que você fosse, que ficasse inacessível agora. Sei que lhe conheço a pouco, e mesmo que seja um pouco mais os outros, ainda é pouco. Não que existam verdades que demandem tempo para as palavras, é que são muitos dizeres. Dizeres até atordoantes, até chatos, até desinteressantes, até estúpidos: aqueles cujas torpeza e vulgaridade desencorajam qualquer escuta.E são longas as horas nas quais a escuta me fora negligenciada.
Não julgo, ou melhor: julgo todas, não condeno ninguém, nem ouvido, nem escuta, nem palavra. São essas coisas sabe? que vão perdendo a voz em lamúrias pelos cantos, mas não só lamúrias: os cantos e os contos silenciados nas esquinas, nas esquivas, nos tetos e nas paredes. Esses sussurros que comunicam no espaço pretensiosamente ocupado entre minhas orelhas.
-Você reparou nas lições do vento? Nos sons ancestrais que nos aconselham? Faz-se presente no farfalhar das folhas desacreditadas.
-Você ouviu a mudança? Dizem os boatos que trocamos de problemas, mesmo quando as velhas questões permanecem sem resposta.
-  Você sentiu a chegada da frente fria? Vem-se acompanhando de edredons para manter saudável a garganta? Não cometa a falha inevitável de abrigar-se no calor da alcova para refugiar-se dos novos ares frios dos tempos, cujos velhos problemas são vindouros.
Já o fizestes?  Não tem problema, todas nós o fizemos.
-Você chorou vendo aquele filme indicado ao Oscar?
-Mudou as formas em sua nova depilação pubiana?
-Aparou com a língua uma lágrima salgada de saudade ou de alegria?
Não?
Sim?
Não é a resposta, é a resposta.
A questão não é a validade, mas a disposição para ouvir considerações refinadas como açúcar.
E não é sempre essa a nossa questão? divisão é operação simbólica rejeitada pelo fluxo de nossas torpezas. Mas você, cuja face abriga-se atrás das cabeleiras, escapa-me. Vem constantemente esfumaceando os momentos de escuta. Escuta é o processo menos passivo que há: demanda admirar-se com o espetáculo das palavras ao dançar, e até certa indiferença à mesquinhez do que se diz.

Você ficaria para escutar todas as minhas pequenas porções de história, mesmo se elas forem o que me sobrou para contar?
Você me ouve?
Alguém?
Farfalhar a falar.

sábado, 4 de março de 2017

Escrava dos próprios silêncios
Jogando pedaços de pão aos próprios tormentos à beira do lago
Perdendo-se em todas
Para se enc..ontrar
Qual será a solução quando a aposta gorar
E o tempo requisitar o convívio de si consigo?
Quem irá perder os olhos e os ossos nas paredes do inimigo?
Quantos nós para desmentir a rede de pescar estrelas do céu que já clareou?
                                                   
Pra quem será lançado o agouro?
Paz, quietude, tranqüilidade:
Pede, mas pede com fé
Pode ser que a tua oração sedenta
Horrorize a sacerdotisa atenta
Quando ela perceber que a paz tu pedes enquanto a guerra sustenta
E horrorizará
Pela gritante distância entre letras e gestos
Não soube expressar bem teu protesto
Pede por sentimento cujos atos bradam:
-Perverso!
E pedes, clamando auxílio
Implora ajuda para resistir ao exílio
Que criastes para auto-convencer que foi tolhida a liberdade
Mas o quão livre é quem se reivindica uma verdade
Cujos olhos refutam por vaidade¿
Quem admite a agressão enquanto exige proteção¿

Afasta-te.
Afasta-te daqui.
Mas aprende antes a necessidade de afastar-se de si.
Há um ímpeto de loucura em  cada gesto comedido
Há fúria homicida escondida nos abraços de harmonia
Há pesar de ontem no perdão de hoje
Há perdão de ontem na falta do porvir
Há lágrima interrompida na vista esmaecida
Há vulto sem cor disfarçado de quebra-pudor
Há sempre aquela palavra não dita, sempre esperança de melhora pós-sono, sempre certeza de equilíbrio depois do torpor
Há.
Há festas negadas nas cabeças grisalhas...arrependimento
Há crise geradora em todo poeta desconhecido
E um pouco de mártir em toda voz aumentada
Há um poeta morto de tédio atrás do aplicativo
Alma desesperada em todo site de encontro
Há desventura em todo sonho, frustração e desconsolo para calibrar
Há ajustes no perfeito, arremates no pronto e retoques na tela exposta que ninguém fez
Talvez não se perceba, mas sinta em cada fibra fina que tenta tremer
Há audácia no cotidiano
Rega-se de tédio o exagero
Tempera-se o ócio da labuta infinita, mais-valia da alma que insistem em nos debitar
Há sorrisos dormentes na aura pálida que os aios de sol não tocam
Muitas vidas habitam as cinzas dos cigarros e as pontas-de-dedo cansadas de apertar
Há sebo de vela m potencial em cada sexo conjugal
Chicote impossível escondido em selvas pêlos pubianos
Há porção de estrias invisíveis em cada bunda de top model
Mas há.
Não há.
No existir, há o chamar de lar
Há o fantasma da existência em cada palavra proferida
E um pouco de palavra na miríade de todo latejar


sexta-feira, 3 de março de 2017

Língua



Boca eu beija e que diz...língua abrigada
Língua torpe que lambeu postes e genitálias
Que disparou gritos de ordem
Que umedeceu o lábio superior
Que esfregou os dentes sujos
Língua com grossa camada de amido
Língua azeda de amanhecer.
Língua que tocou todos os pelos dos paralelepípedos
Língua que pinta o macio
Canto dobrado: 1
Língua epilética que dissolveu o ácido
Que provou o terroso e mofado cogumelo-morango de Caio Fernando
Que recitou Blake para mal dizer Newton
Que cansou de explicar o indizível
Revigorando-se nos movimentos entre-dentes
Que lambeu a goma da seda e selou o baseado.
Que adormeceu após o teste da cocaína encontrada
Que se adoçou na festa de Cosme e Damião
Língua bifurcada de cobra e de lagarto.
Língua morta que agremiara comunidades outrora
Língua desconhecida dos transes religiosos
Língua travada na loucura do cotidiano
Língua que assassinou línguas nos bancos escolares
Língua que amou embaixo das escadas
Língua-dedo em cada escrita-sentimento
Transa mental da língua natal cantando sanidade mental para fugir do imoral e estar em casa às 23:00 para a ceia de Natal.

E alguma língua clama:

-Jeusinho!Jesusinho!
Tua língua provou o doce vinho
Tomado na vulva da prostituta da Babilônia...

Jesusinho!Jesusinho!
Vinagraram tua língua em nome de Roma!
Passe a língua na cruz, ò Nazareno...
Inflame-a de farpas e apaga o INRI, modificando a inscrição.

Jesusinho! Jesusinho!
Sabes o tamanho da língua de teu pai?
O teu falo-genitor estuprou as virgens do ocidente ao condená-las virgens
E usou ele a língua de cada profeta para estupra-las.

Jesusinho! Jesusinho!
Não tem pena delas, ò mártir?
Não te compadeces das línguas de Babel?
Teu pai é o gramático-maníaco que forjou todas as sintaxes.
Amansou todas as revoltas
Decepou as línguas de todos os pagãos.
Boca que beija e que diz: - Corações ao alto!

...ou língua abrigada
...ou língua obrigada

Jesusinho, Jesusinho...
Se és quem tua língua diz tu ou eu, ò filho
Então Jesusinho, Jesusinho
Corte a língua de teu pai para tirar o falo dele de nosso caminho.

Atenciosamente,
As Línguas Temperadas de Cravo e de Cominho

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Será que estava maluca e tudo aquilo não era real? Parte 1

A escrita apreende a sensação indizível.
A escrita torna suportável o terrível
Terrível o corriqueiro
Maravilhoso o despercebido
Escrever é escolha
Escolher é necessário para seguir em frente.

Tínhamos saído da faculdade e ido até o metrô a pé. Embora meu transporte saia de dentro do campus, pela companhia e pelos papos sobre política e filosofia, decidi ir até o metrô e de lá, pegar o ônibus. Chegando próxima a parada, percebi que devido ao nosso passo lento, a condução das 22:20 h já havia passado: teria de esperar o próximo, às 23:20 h. Ver meus colegas subirem a passarela e ficar ali sozinha me apertou o peito, de uma forma peculiar, como se algo fosse acontecer. Bairro universitário costuma ser violento, ter muitos assaltos e pensar sobre certamente causava agonia. Esqueço.
Sento no banco da parada, à beira da rodovia federal 116. Carros e caminhões passam velozmente deslocando o ar e estremecendo a estrutura de metal. Conjecturo se o ônibus não atrasara sua saída, se ainda é possível pegá-lo. Reviro atônita os bolsos atrás de um cigarro. Maravilha! Carteira vazia e meu isqueiro amarelo provavelmente ficou com algum de meus colegas. Teria de aguentar aquela espera sem minha sagrada nicotina. Lá longe, no fim escuro da rodovia, via aquele quadrado metálico mover-se nas sombras, com luzes no alto que indicavam algum tipo de letreiro. Meu bus! De pé e quase no meio fio, espero ansiosa pela aproximação da caixa mágica de metal que me levaria para casa. Mas são dois? Tem mais... Vários quadrados idênticos se movem, chegando perto, percebo que são caminhões com letreiros luminosos, indicando o nome e contato para a transportadora. Tiro o óculos e o limpo, a sujeira deve ter feito eu enxergar mal. Sento-me de novo e  começo a pensar no ônibus que perdi. Tremo de frio, estou parcamente vestida e venta muito na beira da BR. Meu corpo treme inteiro e sento-me encolhida na parada, talvez reagindo inconscientemente ao frio. Um homem se aproxima de bicicleta, carrega uma mochila nas costas e tem um semblante pardo e cansado. A proximidade de sua bicicleta vermelha e a minha solidão na parada me assustam e meus braços formigam em resposta. O coração vai á boca. Ele passa diante da parada e me fita os olhos, fundo o suficiente para que me doesse o peito...e passa reto. Eu preciso ir embora, não posso ficar aqui!
Uma freada brusca rouba minha atenção: um carro breca na pista, e meu peito dói com o solavanco que meu coração dá. A dormência do braço, o tremor de frio e a dor aguda no peito fazem com que eu perceba que estava infartando.
O movimento de carros se torna intenso na BR, mas meus olhos estão turvos, como se existisse uma névoa fina que me privasse de ver os contornos com nitidez. Só enxergo as luzes dos veículos, que  não consigo discernir se são caminhões, carros ou ônibus. Percebo que posso perder a condução, já que não consigo mais reconhecer os tipos de veículos, salvo quando estão muito próximos. Os carros passam a mil, próximos ao ponto, e a cada um que chega perto, sinto o desgoverno de seu motorista e enxergo todos eles se chocando contra a parada e me matando. Os trabalhadores do pólo industrial próximo passam de bicicleta, me olhando, e em cada um deles, prevejo uma arma na casaca e um latrocínio a me vitimar em potencial. O pavor toma conta de mim e preciso sair correndo deste lugar. Penso em retornar para a Universidade. Traço em minha cabeça um plano: volto à Ulbra, passo no hospital universitário para controlar meu infarto galopante, durmo nos bancos do saguão de algum prédio e vou para casa pela manhã. Decido agir. Mas como volto para o campus? Tento pensar no trajeto - que consiste em voltar pelo mesmo caminho pelo qual viera, uma rua reta à 6 minutos do campus – mas não consigo saber como ir pra lá. Me apavoro. Não sei voltar! Não sei fazer o caminho de 6 minutos que percorro a 2 anos!  Calma...Calma! Retoma o controle e traça uma rota de onde tu ta até a Ulbra....ONDE EU ESTOU? O pensamento é desolador. Não sabia onde estava. O peito volta a doer e me curvo no banco da parada, certa de estar próxima da morte.
Olho a rodovia e tudo parece irreal, como se estivesse olhando uma tela viva. As formas parecem distantes e com contornos cálidos,  envoltas por uma bruma que amplia apenas as luzes distantes e flutuantes dos faróis indiscerníveis. ESTOU INFARTANDO...MINHA MÃE IANSÃ, ME DESCULPE QUALQUER FALHA...ME AUXILIE NESSE MOMENTO!
Levanto a cabeça tonta e vejo a estação de trem do outro lado.

PORRA! O DILAN!
 Lembro-me de meu grande amigo que me descrevera um episódio muito similar, dentro do metrô. Ele me contava da vez que pensou estar tendo um ataque dentro do vagão, a tal ponto que desceu e ligou para a mãe, técnica em Enfermagem, para pedir-lhe socorro pois “estava tendo um AVC”. Foi a sua primeira crise de síndrome do pânico.
Será? Será que estava maluca e tudo aquilo não era real?



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A expressão compenetrada
Não é treinada, escapa na respiração dos poros
Entra, esconde, pinta o caos de nevoeiro
Que meus olhos não mostram:
Eu tenho o mundo dentro de mim
E dentro dele, há outros tantos que só eu conheço

Céus borrados por nuvens dançantes
Cores que jorram
Raios que invadem o sol
Fogo que corta o céu
Os astros orbitam meu peito e aceleram a circulação
Dilatam pupilas e expandem brônquios defeituosos
Pele que inflama o pêlo que arrepia

Meus mundos confusos de heterogêneos tons
Bagunceiros e desordenados
Se arrumar, não me perco
Se intervier, perde a paciência
Perde a intimidade
E fica aquela sensação: uma falta de não sei bem o quê
Angustia sem nome

Tentativas externas de ordenar
As meninas dos meus olhos vestiram-se de pernas e friezas
Escondendo o caos
Preservando a bagunça
Afastando-a das curiosas
Desde então, durmo acompanhada
Acordo só
Mantenho-me melodiosamente desgrenhada

Sou casa desordenada
Minha casa, minha desordem
A minha morada é múltipla
De mins.