terça-feira, 14 de março de 2017

Não queria que você fosse, que ficasse inacessível agora. Sei que lhe conheço a pouco, e mesmo que seja um pouco mais os outros, ainda é pouco. Não que existam verdades que demandem tempo para as palavras, é que são muitos dizeres. Dizeres até atordoantes, até chatos, até desinteressantes, até estúpidos: aqueles cujas torpeza e vulgaridade desencorajam qualquer escuta.E são longas as horas nas quais a escuta me fora negligenciada.
Não julgo, ou melhor: julgo todas, não condeno ninguém, nem ouvido, nem escuta, nem palavra. São essas coisas sabe? que vão perdendo a voz em lamúrias pelos cantos, mas não só lamúrias: os cantos e os contos silenciados nas esquinas, nas esquivas, nos tetos e nas paredes. Esses sussurros que comunicam no espaço pretensiosamente ocupado entre minhas orelhas.
-Você reparou nas lições do vento? Nos sons ancestrais que nos aconselham? Faz-se presente no farfalhar das folhas desacreditadas.
-Você ouviu a mudança? Dizem os boatos que trocamos de problemas, mesmo quando as velhas questões permanecem sem resposta.
-  Você sentiu a chegada da frente fria? Vem-se acompanhando de edredons para manter saudável a garganta? Não cometa a falha inevitável de abrigar-se no calor da alcova para refugiar-se dos novos ares frios dos tempos, cujos velhos problemas são vindouros.
Já o fizestes?  Não tem problema, todas nós o fizemos.
-Você chorou vendo aquele filme indicado ao Oscar?
-Mudou as formas em sua nova depilação pubiana?
-Aparou com a língua uma lágrima salgada de saudade ou de alegria?
Não?
Sim?
Não é a resposta, é a resposta.
A questão não é a validade, mas a disposição para ouvir considerações refinadas como açúcar.
E não é sempre essa a nossa questão? divisão é operação simbólica rejeitada pelo fluxo de nossas torpezas. Mas você, cuja face abriga-se atrás das cabeleiras, escapa-me. Vem constantemente esfumaceando os momentos de escuta. Escuta é o processo menos passivo que há: demanda admirar-se com o espetáculo das palavras ao dançar, e até certa indiferença à mesquinhez do que se diz.

Você ficaria para escutar todas as minhas pequenas porções de história, mesmo se elas forem o que me sobrou para contar?
Você me ouve?
Alguém?
Farfalhar a falar.

sábado, 4 de março de 2017

Escrava dos próprios silêncios
Jogando pedaços de pão aos próprios tormentos à beira do lago
Perdendo-se em todas
Para se enc..ontrar
Qual será a solução quando a aposta gorar
E o tempo requisitar o convívio de si consigo?
Quem irá perder os olhos e os ossos nas paredes do inimigo?
Quantos nós para desmentir a rede de pescar estrelas do céu que já clareou?
                                                   
Pra quem será lançado o agouro?
Paz, quietude, tranqüilidade:
Pede, mas pede com fé
Pode ser que a tua oração sedenta
Horrorize a sacerdotisa atenta
Quando ela perceber que a paz tu pedes enquanto a guerra sustenta
E horrorizará
Pela gritante distância entre letras e gestos
Não soube expressar bem teu protesto
Pede por sentimento cujos atos bradam:
-Perverso!
E pedes, clamando auxílio
Implora ajuda para resistir ao exílio
Que criastes para auto-convencer que foi tolhida a liberdade
Mas o quão livre é quem se reivindica uma verdade
Cujos olhos refutam por vaidade¿
Quem admite a agressão enquanto exige proteção¿

Afasta-te.
Afasta-te daqui.
Mas aprende antes a necessidade de afastar-se de si.
Há um ímpeto de loucura em  cada gesto comedido
Há fúria homicida escondida nos abraços de harmonia
Há pesar de ontem no perdão de hoje
Há perdão de ontem na falta do porvir
Há lágrima interrompida na vista esmaecida
Há vulto sem cor disfarçado de quebra-pudor
Há sempre aquela palavra não dita, sempre esperança de melhora pós-sono, sempre certeza de equilíbrio depois do torpor
Há.
Há festas negadas nas cabeças grisalhas...arrependimento
Há crise geradora em todo poeta desconhecido
E um pouco de mártir em toda voz aumentada
Há um poeta morto de tédio atrás do aplicativo
Alma desesperada em todo site de encontro
Há desventura em todo sonho, frustração e desconsolo para calibrar
Há ajustes no perfeito, arremates no pronto e retoques na tela exposta que ninguém fez
Talvez não se perceba, mas sinta em cada fibra fina que tenta tremer
Há audácia no cotidiano
Rega-se de tédio o exagero
Tempera-se o ócio da labuta infinita, mais-valia da alma que insistem em nos debitar
Há sorrisos dormentes na aura pálida que os aios de sol não tocam
Muitas vidas habitam as cinzas dos cigarros e as pontas-de-dedo cansadas de apertar
Há sebo de vela m potencial em cada sexo conjugal
Chicote impossível escondido em selvas pêlos pubianos
Há porção de estrias invisíveis em cada bunda de top model
Mas há.
Não há.
No existir, há o chamar de lar
Há o fantasma da existência em cada palavra proferida
E um pouco de palavra na miríade de todo latejar


sexta-feira, 3 de março de 2017

Língua



Boca eu beija e que diz...língua abrigada
Língua torpe que lambeu postes e genitálias
Que disparou gritos de ordem
Que umedeceu o lábio superior
Que esfregou os dentes sujos
Língua com grossa camada de amido
Língua azeda de amanhecer.
Língua que tocou todos os pelos dos paralelepípedos
Língua que pinta o macio
Canto dobrado: 1
Língua epilética que dissolveu o ácido
Que provou o terroso e mofado cogumelo-morango de Caio Fernando
Que recitou Blake para mal dizer Newton
Que cansou de explicar o indizível
Revigorando-se nos movimentos entre-dentes
Que lambeu a goma da seda e selou o baseado.
Que adormeceu após o teste da cocaína encontrada
Que se adoçou na festa de Cosme e Damião
Língua bifurcada de cobra e de lagarto.
Língua morta que agremiara comunidades outrora
Língua desconhecida dos transes religiosos
Língua travada na loucura do cotidiano
Língua que assassinou línguas nos bancos escolares
Língua que amou embaixo das escadas
Língua-dedo em cada escrita-sentimento
Transa mental da língua natal cantando sanidade mental para fugir do imoral e estar em casa às 23:00 para a ceia de Natal.

E alguma língua clama:

-Jeusinho!Jesusinho!
Tua língua provou o doce vinho
Tomado na vulva da prostituta da Babilônia...

Jesusinho!Jesusinho!
Vinagraram tua língua em nome de Roma!
Passe a língua na cruz, ò Nazareno...
Inflame-a de farpas e apaga o INRI, modificando a inscrição.

Jesusinho! Jesusinho!
Sabes o tamanho da língua de teu pai?
O teu falo-genitor estuprou as virgens do ocidente ao condená-las virgens
E usou ele a língua de cada profeta para estupra-las.

Jesusinho! Jesusinho!
Não tem pena delas, ò mártir?
Não te compadeces das línguas de Babel?
Teu pai é o gramático-maníaco que forjou todas as sintaxes.
Amansou todas as revoltas
Decepou as línguas de todos os pagãos.
Boca que beija e que diz: - Corações ao alto!

...ou língua abrigada
...ou língua obrigada

Jesusinho, Jesusinho...
Se és quem tua língua diz tu ou eu, ò filho
Então Jesusinho, Jesusinho
Corte a língua de teu pai para tirar o falo dele de nosso caminho.

Atenciosamente,
As Línguas Temperadas de Cravo e de Cominho