quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Agradeço por não estar escrevendo no papel. Tá tudo tão rápido, a cabeça mais a mil do que jamais estivera. Os pulsos atacados de tendinite não acompanhariam.

“O poeta é poeta não por amar, mas por sofrer de desamor”.

Compus essa pequena frase há quatro anos. Não acredito mais nela, apesar de tê-la escrito como verdade. Eu sou outra.

Não queria falar de desamor. Essa palavra não me corresponde. Quero falar de palavras. Quero escrevê-las para leitura posterior.

Não é como se não houvesse me apaixonado perdidamente outras vezes. De maneiras intensas, como em uma avalanche. Passei dores, chorei até parecer secar. Não aceitei términos, mesmo sabendo que naqueles casos que não havia retorno. Não compreendi razões, concebendo a ideia da desrazão de se apaixonar. Perdi sono, perdi fome, perdi tesão, perdi  vontade de sol sobre a pele. Recorrendo ao clichê, como não poderia deixar de ser, dessa vez está tudo diferente.

Perdi minhas formas, perdi minhas fronteiras. Sou um espaço desforme flutuante pelos ares não calmos que farfalham as folhas, fazendo-as falar aos sussurros. É o desejo. Para a psicanálise ortodoxa, o desejo é a ausência, a falta. Por isso preferia falar em prazer. Contudo a falta sempre estivera entre nós como um cordão umbilical rompido no pós-parto. Desejo e saudade são instâncias diferentes: a saudade é o rememorar, não é desejo, e sim afetar-se pelo que se lembra. Lembrar, recordar (re-cordis = voltar a passar pelo coração). Recordar é processo de sensação, de experiência. É a experiência do não presente que ainda guarda potencial de provocar sensações, de invocar sentimentos não para repeti-los, mas sim para recriá-los. Nossas memórias são uma coleção de afetos (aquilo que afeta= aquilo que muda) que nos tomam para que sintamos coisas por necessidade, ou por capricho.


Sou tomada por desejos e corrompida por saudade.

Tantas vezes eu imaginara, me sentindo estúpida e infiel a mim mesma, nós duas em algum lugar como uma fila de cinema, mesa de bar, banco de praça, beira de praia. Imaginava o quintal de um sobradinho simples e simpático, sem luxo, com flores e uma pequena horta. Imaginava momentos de briga, desentendimentos de nossos gênios complexos que se emaranharam um no outro tantas vezes e por coisas inexplicavelmente fúteis. Nossas brigas hipotéticas carregavam uma pitada de irrealidade, eram envoltas em uma beleza exógena. Quantas vezes precisei corrigir minha própria imaginação: “- Tu tá pensando baseada só em ti, e se ela precisar voar para lugares onde tuas asas não consigam te levar?”. Não percebi o óbvio. Quisera tantas vezes ser fria, estúpida, calculada o suficiente para ceifar o sonho in vitro. De repente estava ali, sonhando acordada com essas pequenas projeções totalmente imaginadas que tanto acometem os ditos apaixonados. Estava sonhando com tudo aquilo que prometera não sonhar, pois o sonho invoca nossas potências, invoca algumas necessidades  vergonhosas, já que são incontroláveis: sonhos são, entre outras coisas, desejos de presente no futuro. A chave toda fora essa. Lembro-me que ao chegar em casa e pensar sobre a imaginação desse futuro sereno onde tua presença completava todos os espaços, senti-me esvaziada de mim mesma. Como assim? “– Sim, ela é adorável. Sim, é uma criatura da qual não sou digna. Sim, ela é criatura intensa de mil sensações faladas pelos olhos. Sim, ela é tudo isso e eu sou pequena o suficiente pra ser esmagada como uma pulga entre unhas de polegares. Ela me faz perder o controle de mim. As minhas auto promessas valem merda nenhuma na presença dela, pois ela é intensidade, e entra numa frequência minha estranha, na minha intensidade mais particular, que eu julgava adormecida. Minhas regras não valem. Estou protegida das desgraças do mundo, do ônibus, da parada, de casa, de minha própria cabeça, da ideação suicida, dos outros, dos monstros. Estou desprotegida de sua intensidade. Eu sou o Ícaro encantado com todo o brilho e calor, e minhas asas queimam perto dela, que exerce a função Sol.”

E tal qual Ícaro eu caio em chamas no chão seco e rachado dos pensamentos rechaçados.

E isso, é saudade?

Eu não vivi isso pra além da mente, da projeção inocente. Lembro, ou melhor, recordo de momentos que me atravessam. Vários ontens cruzam a rua do meu tele encéfalo carregando pela mão esse motor do sentir montanha- russa. Do sorriso besta à risada esquiza terminada em lágrimas. Mas sinto o desejo, sinto a falta da possibilidade de imaginar esses devires imaginados de nós.
Eles estão vivos em mim. Eles vivem em mim. Eu imagino.
Minha imaginação ainda voa. E o que a alimenta é essa intuição aguda e doída que meu peito me grita no rasgo: não hoje, não amanhã, não o fim. Meu peito sabe, com uma certeza que não sou hábil em explicar a origem, que existe uma escritura de outro plano que escreve nós na mesma linha, em uma vivência enroscada e dançante, onde uma e outra, embora elas mesmas, escolham em alguns momento se confundir ou imergir na própria confusa prévia. Rimos. Meu peito ri da minha cara.
Apenas um fluxo é fluxo-cortante: “- Não estou mais feliz do teu lado, e eu prefiro sair agora que depois.” Preferiria que tivesse sido infiel.  Preferiria mesmo que dissesse não te amo mais. Preferiria que dissesse ter conhecido alguém, ter vontade de solidão e vontade de si mesma. Fazer-te infeliz é erro que não perdoo e tento inútil e desesperadamente entender, contra minha vontade. Esse fluxo-cortante irrompe e interrompe toda saudade que não agoniza, pondo-a no leito moribundo da morte. Não estavas feliz, como posso eu egoistamente desejar o que te fere? Mas sou egoísta contra minha vontade, e sinto saudade.
Saudade do teu corpo brando-quente sob meus dedos, que explodia em loucura no contato com minha epiderme marmórea. Saudade da tua pele de liga-ponto de constelação, desenhada com pincel. Saudade especialmente desses olhos e do brilho que deles emana. Saudade dos teus joelhos marcados de tendões rompidos. Saudade de tua face redonda de maravilhas. Saudade no infinimilímetro. Saudade dos teus dizeres mudos de olhares. Das edições de pensamento que me privava com os lábios e me contava com os olhos. Saudade da risada, caralho que risada gostosa que fazia virar minha alma, e ainda faz toda a vez eu ouço-a como eco na minha mente.
Mais saudade do teu corpo, só da tua alma. Saudade da tua alma que vertia pelos olhos como lágrimas sobre o meu ombro- embora honrada pelo teu silêncio- preferiria que não tivesse que tê-las derramado. Da tua alma que formava gotículas de suor sobre o sol e sobre a cama, sob todos os calores reconhecíveis. Da tua alma que escapava entre os espaços dos dentes como ar e revirava os lábios em sorrisos. Da tua alma que permanecia temporariamente sob a terra que teus pés revolviam no caminhar. Da tua alma que escapava pela testa quando me olhava e franzia o cenho, permitindo-se a sensação de mim e minha inevitável e amarga confusão. Da tua alma que saia no hálito quente do teu sono e da tua vigília, presenteando o ar com os fios temporários de teu ser. Da tua alma que expirava de ti mesmo sem mover-se, e que de tão leve deixava todo o ar carregado do peso das tuas sensações multiplicadas por cem.
É por essa alma, por esse corpo, por essa história que aprendi a admirar quando tive a honra de ser ouvinte de alguns fragmentos, e é também pela beleza das minhas memórias e da minha imaginação. É por entender que a diferença do que já senti e do que sinto é de natureza: são coisas diferentes. É por tudo isso e mais pelos indizíveis, indecifráveis e esguios sentires que carrego no meu peito não como fardo, mas como graça, que entendi que tuas asas são maiores que as minhas.

Voe para o horizonte do sol poente.

Voe.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Das vezes que transito pelo espaço público, sinto frequentemente que conheço praticamente todos os desconhecidos. Eles guardam em sua superfície uma semelhança esdrúxula. -Eu já conversei contigo. Penso ao ver uma meia dúzia de moças e moços em cinco minutos de caminhada pela calçada.- Eu já te vi em algum lugar. - Eu já peguei ônibus contigo.
São meras impressões. Mas são assustadoras. Conhecer os desconhecidos é pura fantasia poética.
Não se conhece nem quem se pensa conhecer.
Sonhos da semana passada e suas variações

Segunda-feira

Boa parte do sonho constitui-se apenas de sons de carros e caminhões passando. Sinto o vento na pele do rosto. Sinto frio, muito frio. Braços quentes me envolvem. Vejo a BR 116 e a Estação São Luis por entre braços. Estão vestidos (os braços) de preto, um casaco de lã fina. Estou no aconchego de um abraço quente, meu coração está acelerado, mas não sinto medo. Olho pra cima e vejo seus olhos, seus grandes e castanhos olhos a me olhar, com as sobrancelhas franzidas como se deixassem um pensamento escapar pelas rugas da testa. Enfio a cara novamente em seu abraço. Acordo abraçada em um travesseiro molhado, não se se por lágrimas ou suor.

Terça-feira

Estou no mesmo ponto do sonho da noite anterior. Saio de seu abraço. Estamos conversando não sei o quê: ela olhando pra passarela, eu olhando pra ela. Ela vira o rosto, e seus olhos atravessam minha cabeça, atravessam meu crânio. Penso no sonho: nós terminamos, isso é um sonho; em seguida reconsidero: foda-se, nós terminamos, posso estar com ela ao menos no sonho. Vou abraçá-la. Acordo.

Quarta-feira

Estou na parada da Estação São Luís. Tínhamos marcado as 21:00hs. É 22:00hs e ela não apareceu. Embarco no ônibus, muito triste. Ao passar o cartão, ouço um psiu. Ela é cobradora. Pergunto porque não apareceu, no que ela me responde: - Apareceu onde moça? Acordo.

Quinta-feira

Tenho um sono muito agitado, sonho a noite toda. Ao acordar, por alguns minutos desesperadores, penso estar na cama dela, no quarto dela. Sinto o cheiro do quarto e ouço sua respiração. Levanto e acendo a luz. Estou no meu quarto, pingando de suor.

Sexta-feira

Mal pego o sono. Sonho com um barulho de buzina absurdamente alto. Acordo. A sensação de estar na cama dela como na noite anterior persiste.
Onde ficaram as nossas promessas?
Em que parte da estante eu guardo os arrepios na espinha?
Com qual marca texto eu ressalto teu bilhetinho
(que ainda não tive a coragem do descarte, e por medo de assaltos, deixo em casa para ler no final de todos os dias)?
Com qual borracha eu apago as tuas impressões no meu corpo?
Qual chá de boldo repara os apertões no fundo da barriga?
Com quantos dedos contos os dias que não virão
Os abraços que não darei
Os beijos pelos quais ninguém mais se interessa

Qual cardiologista visito para abortar esse contrair errante dos ventrículos estúpidos
Contraem contra minha vontade.
Qual nosografia apaga a memória
Faz com que não me afete
Desinfete
Qual sapato calço se meus pés estão pequenos, sumindo no caminho?

Cada passo, mais próxima do cadafalso
Cada tiro, cara a cara com o delírio
Cada parada, uma memória parda
Cada cigarro aceso, o fim dado pelo recomeço
Pra uma, um milhão
Pra outra, nem perdão

Onde ficaram as nossas promessas?
Em que parte da estante eu guardo os arrepios na espinha?
Com qual marca texto eu ressalto teu bilhetinho
(que ainda não tive a coragem do descarte, e por medo de assaltos, deixo em casa para ler no final de todos os dias)?

Amar é jogo difícil

"Quando um não quer, dois não brincam"
Risca essa regra.
Paixão é precipício.
Quando uma ama, ama e ponto.

Não importa onde se é fim ou início.

Sim. A dor me arrebenta o peito.
Mas fiz diferente dessa vez: não me escondi nas folhas de mata-borrão, não escondi minhas lágrimas escrevendo, embora escreva com dor.
Sim. A dor me arrebenta o peito.
Não é exagero. Ela realmente arrebenta: é uma dor física.
É ter 4 princípios de infarto por dia.
É não conseguir dormir por horas, rolar na cama, fechar os olhos e vê-la na escuridão das minhas pálpebras. É lembrar de seu toque, é sorrir com as piadas de outros dias.
Sim. A dor me arrebenta o peito.
Não sei controlar essa bosta. Meus dias veem sendo, quando bons, apenas suportáveis. Não me preocupo mais em fingir. Quando fica muito insuportável eu estudo. Estudo como se minha vida dependesse disso para se manter. Estudo como se os livros fossem caverna segura da chuva. Estudo como quem come um prato de comida após jejum involuntário de 92 horas. Estudo na ânsia de enganar meu cérebro. Leio até a exaustão, penso até a exaustão. Poderia dormir logo após tanto exercício mental. Mas não adormeço. E leio novamente.
Sim. A dor me arrebenta o peito.
É uma dor amarga. Que não quero dividir com ninguém. Não quero ver ninguém. Não quero tapas nas costas "Tudo vai ficar bem". O problema de todos vocês é que pensam que sentimentos foram feitos pra passar. Errado. Eles foram feitos pra sentir. E eu os sinto, deveras, pra caralho.
Não iria procurá-la. Prometi a mim mesma. Embora meu peito urre por ela, embora minha intuição me diga que essa ponte verá aguas passarem. Que ponte? A enxurrada levou a ponte, levou as vigas, destruiu a margem através da erosão e eu cai na ribanceira.
Sim. A dor me arrebenta o peito.
Perdi os poucos quilos que tanto esforcei pra ganhar. Perdi o pouco sono que conseguia manter. Todas as noites acordo, muitas vezes, esquecendo dos meus sonhos e sentindo seu cheiro no quarto vazio. Todas as noites eu sonho. Acordo com seu olhar na mente.
Sonho com lembranças. Lembro-sonho com aquele olhar da parada (aquele, se soubesse, teria pego a porra do ônibus sem olhar pra trás, sem pestanejar. AQUELE) e sinto de novo. Como se estivesse ali, me lhando, com aqueles grandes e límpidos olhos de Capitu, olhos de ressaca.
Sinto tudo, sinto ainda, sinto e continuarei sentindo. Com cada fibra, com cada pelo, com cada poro, com cada ml de sangue e com cada alvéolo pulmonar.
Sentirei.
Mas enquanto isso, sinto muito.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Sem coragem de Pular parte 3

Por enquanto, não quero narrar-me narrar-te.
Não quero mais expor aquele momento.
Passei por ele com minhas milhares
Com minhas múltiplas.
Não quero apreender nada na linguagem.
Não quero lembrar, relembrar, recordar, recordis, reafirmar o que senti.
Quero sensação, não repeteco.
Quero sensação, não simulacro.
Escrever é lembrar.
Recontar é simular.
Não quero simular
Quero dissimular, dessimular, de-simular, des-si-mular, não mular-me, desmular-me.

O fato é que pulei, pularia de novo?
Não sei.

Pularia?
Quem sabe.
Quem sabe.
Quem sabe.
Quem sabe.
Quem sabe?
Tu sabe?
Eus sabem?

Ninguém.

Devir.
Maquinaria do diabo, passando e repassando na minha cabeça. Como faz? Como recria? 

Não tenho paciência pra recomeçar.

Nem eu.
Não conseguiria, mesmo se quisesse.
Talvez tenha mentido, não para convencâ-la, mas para reafirmar-me.
Eu quero
Eu quero
Eu quero.
Eu quero?

O único jeito é esgotar a sensação. É esgotar o sentido, é fazer o significante uma peça fraturada, que não transmite nada, da qual os clientes se afastem. É sentir a tal ponto até perder o sentir, até tornar-se vazio. Até esvaziar-se de novo, e de novo e de novo. Como o resto de todos os dias, que são iguais em seus eventos cotidianos e deprimentes. É tornar mais um na coleção dos dias. E como faz? Seguindo a própria fórmula ora bolas!
Pra cada promessa quadrada, pra cada traição de si mesma apenas pela outra e pelo desespero infantil de perder o momento. Pra cada uma delas. Dessas. De todas outras. Um piti. Uma reação descompassada, um jogar a culpa na outra. Chamar de covarde. Não que isso seja mentira. Também não que seja verdade. É apenas relacional. E a minha relação é sempre fria, meticulosa, calculada. Isso não quer dizer que não sinta, que não vibre, que não infle. Quer dizer apenas o que diz. E há, há palavras o suficiente para dizer. Justamente por isso que talvez, realmente, seja melhor eu estar só.

Me conte olhando pro lado dos momentos de vitória, dos momentos de derrota. De quando se achou feia e teve vergonha de tirar a roupa. De quando não sabia quantos dedos enfiava. De quando se excitou conferindo o troco diante da caixa tesuda. Me conte olhando pros próprios pés da iniciação com um homem. Do momento que teve que dizer pros primos que não iria dar pra eles porque gostava mesmo era de xota. Da festa tão linda, em que estava vestida como uma princesa podre de bêbada e peidando baixinho nos cantos. Evoque suas memórias irreais, invoque-as para recontá-las, para fazer o momento voltar a passar pelo coração, e recriar o fato, reafirmando a identidade. Me confesse o silêncio inconfessável. Me conceda sinal para criar intensidade desconhecida junta no silêncio e no frio da lajota. Me abrace quieta, não olhando pra mim, de pé pra latejar varizes de 24 anos. Me tome, se embriague, ou me vomite. No momento em que lembrar não é coerente, que falar é um ato vazio. Quando a linguagem não te enquadrar, quando você só souber sentir: não porque estejas constrangida, mas sim porque de tanto sentir só falará ou pelo silêncio, ou pelas lágrimas.Não fujas desse momento me tocando a boceta, não aceito tocar-me a boceta pra fugir de ti mesma. Fuja com outras bocetas. A minha serve apenas para que nos percamos.
Me sinta, me estilhace, me irracionalize. Não me convide pra histórias que já vivi. Sou uma estudante de história que detesta histórias de ontem.
Talvez a dor seja sentida pela repetição. Está doendo. Está doendo Está doendo. Está doendo. Está doendo. E dói. E se não for assim? E se a engrenagem da dor for outra? Faz tempo que sinto a dor de um jeito frio. Sinto falta daquelas dores que me rasgam, que fazem com que queira ser as mulheres troianas do Cacoyannis, jogando terra na própria cara. Mas isso não evoca a dor. Evoca o irracional, o que extrapola o que estrangula, o que verte, o que goza  o corpo inteiro, pois não sabe se portar. Não quero dor, quero o irracional do que eu não controlo. Quero as sensações desconhecidas e ambulantes. Se for pela dor, que seja, mas que não seja nomeável como dor.

Imagina a merda da vida de um Brás Cubas, em torno do emplastro, sem chegar a resultado nenhum, sem ter comido quem queria. Gosto do Machado, realmente gosto. Ele tem estratégias de linguagem que sempre me prendem. Mas venho lendo-o com certo tédio. O final pessimista vem me irritando. Talvez não seja de toda pessimista, talvez minha eletricidade não consiga irracionalizar-ser nas páginas de Machado. Venho achado seus personagens tediosos, suas mulheres incomíveis, seus homens pseudo-passionais. Gosto do conflito moral. Gosto da forma. Mas descobrindo a forma e lendo alguns contos escolhidos, perdi o tesão. Exatamente no momento que, na leitura do terceiro conto, já sabia o final, pois já descobrira a forma.

Outros sonhos

O amigo em questão dividira comigo uma experimentação. Depois do teto, nunca mais nossa amizade fora a mesma.

Sonho primeiro (dois dias depois do teto supracitado)

Estou sentada no chão do quarto do amigo em frente a um espelho. No sonho, tínhamos tomado um quarto de papel que ainda não tinha batido. Vejo ele de pé através do espelho. Ele olha pra mim com um olhar malicioso, sorrindo de meia boca. Me assusto e ele percebe, abrindo um sorriso inteiro e tenebroso. Olho para trás, e ele está mexendo no notebook sentado em uma cadeira. Olho novamente para o espelho, ele ainda sorri de pé, e me abana.

Sonho segundo (uma semana após o teto)

Estou na passarela da estação São Luís para me suicidar. O amigo me segura pelo braço e me questiona porque estava fazendo aquilo. Eu olho para a rodovia lá embaixo, falando de meus problemas. Sinto que ele me olha, e percebo que está sorrindo. Viro o rosto e ele está muito sério, prestando atenção. Volto a olhar pra rodovia, e sinto novamente seu olhar e seu sorriso. Digo a ele que não quero mais viver. Ele me diz que tire isso da cabeça Sinto um empurrão e caio. Olho pra cima  ele está com a mão espalmada, braço esticado, olhando-me no olhos e sorrindo.

Mais um sonho

Sonho que estou em uma casa familiar, de pessoas conhecidas. Existem duas mulheres no sonho, uma mais velha e uma mais nova. A mais velha cuida de um menino de 8 anos. O menino dorme em seu quarto e eu entro sorrateiramente, abro a gaveta do criado-mudo e roubo um óculos escuro de armação azul. Saio do quarto arrependida de ter roubado. Espero o menino sair do quarto, entro sorrateiramente e devolvo o óculos ao lugar do qual o havia retirado.

Ainda nos sonhos

Sonho de  um dia após do término


Estava num bar de paredes bordôs. Eu estava grávida, mas não sabia de quem era o filho. Estava bebendo um On the Rocks, três pedrinhas, sem água, como sempre peço. Reparo subitamente que era um bar que fui com amigos de antigamente, o General Street, atual Quiosque Brasil na Cidade Baixa. Pedia conselhos a um desconhecido sobre minha gravidez. Chega a minha penúltima namorada. Senta-se a mesa e me questiona sobre como conseguira engravidar. O estranho levanta. Respondo que engravidara com o dildo. Tomo um tapa na cara e sou chamada de debochada. Ela levanta e chama atenção de todos do bar, me gritando impropérios, dizendo entre outras coisas que eu era uma mulher insuportável e que apenas uma pessoa muito desequilibrada e sem nada melhor pra fazer iria querer transar comigo, logo após, sai do bar. A atendente chega até mim e me oferece um copo de água. Ela não tem rosto. Me assusto e saio correndo do bar. Chego na calçada e não há mais nada aberto. Caio na calçada, minha última namorada (dona do dildo) me chuta a barriga e eu aborto.

Sonhos de semana passada

Sonho-remember

Estava no ônibus, na BR 116 bem próxima da Universidade. Olhando as  linhas retas dos puta-merdas amarelos e as cabeças voltadas pra frente, virando o rosto e encarando o asfalto com faixas brancas intermitentes que de longe simulam infimilímetros de exatidão, tenho uma epifania que me toma o peito acerca da leitura de Vigiar e Punir, de Foucault. Chego na Universidade, dirijo-me atordoada para a orientação, despejando frases desconexas para a minha orientadora, que me olha assustada.

A cena se passou no Universo onírico tedioso da vigília, cerca de um ano atrás. Ao acordar, percebi que esquecera qual era a epifania do acontecido de antes que repetiu-se em sonho.


Antes do término

Sonho com minha namorada (atual ex, no sonho ainda namorada). Estávamos brigando, ou apenas conversando energicamente. Estava noite. Procurávamos um lugar para ir, me convida para sua casa. Sua casa era de madeira, mais alta que o terreno. A mãe, tinha a mesma idade que ela, o pai era mais novo que a mãe. A mãe possuía cabelo preto liso trancado em um rabo-de-cavalo. Chegava ás nove da manhã do trabalho, que era noturno. O pai não tinha rosto. A casa estava vazia, mas enchia-se com os passos dela, fazendo ranger as tábuas. O barulho e os pequenos tremores dos passos me deixavam nervosa. Estávamos na rua. A rua da casa dela era terrivelmente parecida com a rua em que voltava da antiga escola em que trabalhei, perto de minha casa, penso isso no sonho. Estamos próximas à uma parada de ônibus. Olhando para o chão, reparo uma câmera filmadora (daquelas com fita cacete), com uma luz de flash voltada para nós. A câmera move-se sozinha em minha direção. Estávamos sentadas no meio fio, ela levanta e pega a câmera em suas mãos.

Terminamos no dia seguinte.

O mar

Estava indo para a beira da praia a noite. Sentia uma brisa muito quente, que me fazia tremer de frio. Olhava de longe a água, com vontade de me aproximar. Chegando perto, vejo que as ondas vão em direção oposta, quebrando no oceano e não na faixa de areia. Me assusto e vou andando para trás, tropeço e caio em algo muito rígido. Olho para baixo e asfaltaram metade da faixa de areia. O rolo compressor está a minha direita. O operador, vendo meu susto com as ondas ao contrário diz: - Não te assusta, é por causa das migrações das jubartes que o mar fica desse jeito. Saio correndo da praia, com medo do rolo compressor me atropelar.









Rima Pobre ou Por uma Rima Menor (Beijos Kafka! Mimoso!)

Rima pobre
  Verso pobre
     Poema pobre
       
                                   Meu verso é tolo, não é nobre

Rima torta
   Verso torto
      Poesia torta

                              Minha coletânea triste serve por agora

Rima pequena
   Verso menor
      Poesia pequena

                         Minha escrita não contagia, é pasma e serena

Rimo com paixão
   Verso com paixão
      Profetizo com paixão

                        Minha escrita nada vale, mas valeu a intenção.

Ode à Lisbon Revisited e ao Poeta Maior (ou seria Ode à Poética e ao Poeta menor?)

Estou totalmente sem paciência
Para aprender a escrever com excelência

Totalmente sem paciência
De ler sonetos decassílabos
Do dialeto morto das tribos
De ser poetisa (?) sem eloquência (!)

Cansada, enfastiada, exaurida
Foi-se embora a conivência
Aliadas de frases tortas
Poemas oníricos sem laudos de demência

Lisbon Revisited habita em mim
Decepção fecundou minha escrita
Porém trouxe consigo a alma maldita
E o colapso criativo chegara ao fim (?)

Para os confins da terra irei
Poucos pertences levarei
Se folhas em branco forem ao meu lado
Pra esta banda jamais voltarei.

Ode aos Grandes Mestres

Pinta Dali, volta a tela tua
E diga a Federico que vosso amor
Desabrigou-se: agora jaz na rua

Pinta Monet, volte a tela tua
Pinta teu amor envolto de flores bonitas
Já que moça nunca será sua

Escreva Bandeira, escreva
Com pouca saúde já não se ilude
Que dessa vida tu te atreva

Componha Vivaldi, componha
À luz e à sombra, ao ódio e ao amor
Que escondes com vergonha

Ode aos meus Mestres!
Ode para a vida e para a arte!
Óh, mestres grandiosos!
Peço a vós um pouco de inspiração
Para tecer estes versos odiosos!



Elegia á Caetano

Qual ciência explica
O que não cabe nas palavras?
Nine of ten movie stars make me cry
I'm alive e vivo, vivo, vivo, vivo muito

Por que nem tudo cabe nas palavras?
Pegarei a agulha para coser
Sentença em sentença
Até alcançar o sentido dançante
De todos os poros e todas as superfícies

Até passarmos pelo brigadiano
Segurarei a respiração gelada
Estará confinada nos pulmões mortos.

Se você olhar pela janela
Verá a fumaça do meu escapamento

Arruma as malas, venha!
Não tarde a amarrar suas fitas
God....spoke to me...
You are my sun.

Te espero no pé da escada
Enquanto te enfeitas com cores
Não esqueças dos detalhes
Que são a morada da transa.
No mapa do mundo
A escala está errada
O geógrafo áspero reajusta
O que leu com os pés

Decifrarei as fronteiras do nada
Com a ponta de minha língua
E as curvadas ladeiras do país
Serão escritas nos muros

Já não se parece mais com nada
Maria não é mais o inverso
Do reflexo de espelho d'água
Se olha, mas não se reconhece

Não é o reflexo que é oposto
É Maria que está ao contrário
Do que fora cinco minutos antes
Mas e agora, quem é aquela no espelho?

Gostaria de contar dois ou três causos que vem me acontecendo. Eu tenho andado na mentira. E que ética eu apontarei? E como poderei eu justificar-me perante amigos (aqueles os quais  teoricamente, não deveriam ser poupados de minhas verdades)? E como será a realização desses instantes de socialização após as lombas? E quando tudo estourará? Estourará?
Se o pano de fundo é esse tal de narrar-se, vou-me narrando. A barreira borradada entre o real e a mentira é o que redime a culpa.
E em quantas quantos eu irei esbarrar pelos corredores? Em quantos macios tapetes terei de embolar os pés? Em quantas colunas mais terei que quase atropelar-me? Com quantas outras caras terei de me confundir?

Eu vivo a síndrome do camaleão que molha a pele sob os pingos de chuva.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Deixei?
Permiti?
Não deixei
Me permiti
Permiti todo o que chamara de ridículo
Expus-me quase na manchete
Falei de tudo que não devia
De todo o tudo que escondera

Privei-me
Privei-me de comportamento
Mas ardia
Ardi
Ardo
E continuarei ardendo

Privei-me de perguntas, pois já fora rechaçada ao perguntar
Privei-me de vontades, pois estávamos aprendendo a desviciar
Privei-me de álcool por solidariedade
Privei-me de erva por recomendação acatada
Privei-me de senso
Privei-me do que prometera

Privei-me
Mas ardia
Ardi
Ardo
E continuarei ardendo

Dediquei-me na elegia
Me expus
Me expus como prometera não fazer
Através da poesia
Mas se dediquei
Se expus
Foi por não privar-me
Pois ardia
Ardi
Ardo
E continuarei ardendo

Entreguei com cautela
Entreguei nada além de pedaços
Pois estava aos pedaços
Estava nos cacos
Estava me remendando
Estava me reunindo

Mas entreguei
Como um carteiro
Entreguei e estava aprendendo a entregar
Aprendendo a pisar
Aprendendo o tamanho de teus mocassins
Aprendendo que estava sensível
Meus cacos me cortam
Mas ia aprendendo a não cortar
Querendo entregar os cacos mais bonitos
o todo estava aprendendo
ou melhor, reaprendendo
Pois tudo que não conseguira não ser
Era ardor
Pois ardia
Ardi
Ardo
E continuarei ardendo

Fui com medo
Com muito medo
Não vacila
Eu gritava
Não vacila
Eu pedia
Não vacila
Não conseguirei não me cortar nos cacos
Se vacilar

Mas vacilei
Sem saber o quê
Rejeitando os comos
Procurando os porquês
Eu vacilara

Não vacilaria de novo, é bem verdade
Mas de que adianta?
O que modifica?
Passam o Linha II Shopping e o Centro:
A imagem não vai sair da cabeça.
Fomos fadadas às paradas de ônibus
No começo e no fim
Mas que fim?
Quem estipula o fim?
Você?
Eu?
A parada?

É sempre a intensidade
É sempre o conjunto de nossas milhares
É sempre o fluxo
E eu só sei arder
Pois ardia
Ardi
Ardo
E continuarei ardendo.
Pungente vontade de compartilhar o que sempre fora meu
Fiz
Não arrependo
Compartilhei, mesmo sendo arremedo
Poesia de começo
De paixão
Quis ser lida na minha língua mais profana
Mais escondida
Mais íntima
E mostrei

Escrevi algumas linhas.
Duas páginas
Uma folha
Em papel colorido de joaninha
Com letra cursiva
Bem desenhada
Reescrita várias vezes
Mostrei o que havia de meu, de só meu e meu só

Venci o medo de parecer pueril
Recitei as de outros autores
As que achava mais belas
Recitei Neruda
Recitei Bandeira
Emprestei Pessoa
Mas a dor foi de escrever Deborah

Escrevi todas as sensações pequenas
Comparado-as com flores, com orvalho
Escrevi-as de peito aberto e mente inquieta
Escrevi-as como se não soubesse me dizer de outro jeito
Me escrevi Deborah

Me mostrei escrita pela primeira vez
E meus versos foram lidos
Depois guardados em um roupeiro
Dobrados em três partes
Não sei a releitura
Não sei a sonoridade
Escrevi nós duas dizendo
"Tem que ser do jeito que couber toda nossa ansiedade"

Mas quem afinal coube naquelas palavras?
Quem foi levada em conta ?
Quem foi levada embora?
Escrevi a ti, sensações singelas
Mas a dor foi de escrever Deborah

Já devo ter sido amassada
E posta na lata do lixo
E de quem será a culpa?
Há culpa?
Pois quando escrevera eu já sabia
Que do finito do mundo
Contava com a lealdade dela
O que despedaçou o peito foi a espera vã
Depois de ter tomado coragem pela primeira vez
Pra ter me escrito Deborah.

Sem Coragem pra Pular parte 2

-Que rufem os tambores da selva pra ti, que virou uma letra seguida de um ponto sem rosto e sem outras coisas mais, covarde, escondida, pseudo- rebelde. Tua alcunha? M ponto ( = M.) (Entra sonoplastia com tambores rufando)
-Antes de mais nada, minha querida plateia de um homem só que por curiosidade esteja aqui....preci....
Chamam no ponto, peraí. ( O que você está fazendo?)
OOOOO diretor filha da puta, legista do IML, quero contar minha historinha depois de tanto tempo guardada, a última vez foi em um picadeiro comendo pipocas e vendo uma decrépita gritar por causa de mim. Hoje sabemos que somos várias, de espécies diferentes, mas que eu não se livrará tão fácil do que tenho a dizer. Principalmente quando eu descobriu que não existe autor ( pela letra do Foucault), e me liberou ainda mais com esses filósofos chapados que eu lê.
Voltemos!
- Querida plateia, chutei o legista do IML. Ele é frio, ele chora, ele chora pelo amor perdido. e é ele msm. Só algo do gênero masculino poderia ser tão imbecil.

-Vou contar uma linda historinha que começa quando o legista sai de cena. Com toda a minha loucura, urrando minhas dores e minhas sensações sem nome.
- Fatos primeiros: É óbvio que é graças à uma paixão que volto. Antes, tentou-se fluxo de consciência, mas toda consciência é fluxo, já que somos muitas. Eu sou a que é temida, e não aquela teme, mas relato a que treme. Hoje, não tem médico, hoje não tem remédio pra dormir, hoje tem peça de teatro da desgraça, pior que Machado de Assis, que mostra a cartomante pra matar os amantes no final (né? pau no cu!). Os personagens são apresentados por ato, ou conforme foram aparecendo: as regras aqui não valem. Take places!

Hoje, é peça de teatro da desgraça!

Personagens:
Consciência 1
Professora
Mana: a sempre presente, a honra, a valiosa.
M.: presença não presente.
ATO 1
CENA 1
As cenas são prescindidas de densa ambientação psicológica. Mas desta vez é sem drama, é descritivo, mas o descrito é pesado, é flamejante.

Ambiente 1:
Acordada sem ter ido dormir. Porra do caralho, como ela pôde? O peito pesa maldito. às 04:31 acabara a ladainha, cansada, uma carteira de cigarro mais perto da morte, olhos inchados de lágrimas que não caíram tanto quanto deveriam. Acabara de escrever uma parte da porra do relatório, estava cansada, involuntariamente solteira através do Whats App. O escritório com roupeiro bege estava lá, presenciara tudo, com seus móveis mudo. Tudo fedia a cigarro. Há mesa, cadeira que gira e luminária acessa.

Consciência 1: Bom, o dia vai começar. Tomo banho, entrego o relatório e vou vê-la. Deixa eu pensar no bus. E se ela não for? bom, nesse caso, levo a minha canga, deito atrás de uma parada, ou em uma praça próxima caso esteja vazia e durmo. E se ela for? O que farei? Meu deus, estou tão nervosa que preciso me cuidar pra não vomitar tudo que pensei quando ela me falou. Vomitar que eu a amo, vomitar que a quero demais, vomitar que ela é uma covarde por estar fazendo isso, e que além de covarde, está cometendo uma grande injustiça. E se ela quiser voltar? E se passar mal, e começar as ideações que o Brenno comentou ser perigosas: estarei na beira de uma avenida movimentada. Não. Não vou.CENA 2 Essa merda de ônibus que não...PUTA MERDA!
 E para o ônibus, quase passando a parada. O corpo cansado desliza no banco, e adormece até seu ponto de chegada.

ATO 2
CENA 1

Ambiente 2:Museu de Ciências Naturais da Universidade. Porta de vidro, animais empalhados. já estivera lá, com M. A sala da aula é pequena, atrás de uma porta com letreiro de de intificação. Não perde em nada para um hospital.

Professora: Aqui, o se fica junto do que, não separa. Sujeito e complemento juntos. Muito bom. Aqui, vamos por uma tabulação. Que estranho, está desformatando tudo. Aqui, ó, isso dá pra expandir. Tu pode tirar as imagens dos anexos e trazê-las pro meio do texto. Essa vírgula fica aqui. Faça frases curtas. Ó, isso tem que aparecer lá na tua introdução. Ficou confuso, foi elas que produziram ou tu que produziu com estes materiais? Vai ter que separar o que transcrição tua e o que é produção delas.Vai falando enquanto vou arrumando...

Entra em cena a Mana.

Professora: Olá (....), tudo bom?

Mana: Tudo prof. Oi mana!

Consciência 1: graças a deus a mana tá aqui!!!!!. Oi mana! Tu vai me esperar? Cara eu preciso de um abraço da mana.

Mana: Vou sim. Vou ali almoçar com as gurias e te espero ali no chimarródromo, pode ser?

Consciência 1: Pode sim mana! até depois....

Mana: Até gente.

Professora: Tchau (...).

Consciencia 1: Tá prof, olha só, que tu acha de usar dois casos meu deus o meu coração aperta mais detalhados pra ilustrar as categorias me ajuda minha mãe Timboá, não me deixe acontecer nada na rua esperando por ela, ela indo ou não de análise, daí junto os exemplos mas explico as mais férteis preciso olhar naqueles olhos, mesmo que seja a última vez, ela não pode terminar comigo por Whats App!!!! daí agrupo todas, destacando do conjunto de pichações no geral e analiso duas em detalhes aff termina logo...., o que tu acha?

Começa a chover torrencialmente.

Professora: Pode ser. Nesses é bom tu por imagens bem legíveis... meu deus, olha a chuva....É, tu tens boas análises. Engorda teu relatório com desenvolvimento teórico no capítulo dois sobre o que já conversamos. Dá pra entregar tranquilamente até sábado. Nossa, tu quer uma carona? Tá chovendo muito. A não tu vais ver o (...) Olha lá, ele tá ali te esperando.

Consciência 1: Sim prof, eu vou ali com ele. Até mais, obrigada pelas dicas e bom fim de semana.

Ambiente 2: Fora do Museu, uma pequena lancheria fechada,  com toldos para aparar a chuva e o vento. Cadeiras de madeira pra cima. A ideia era remeter a cultura gaúcha. O lugar chama-se "Salchipão", e como todo o resto, está vazio. Exceto pela Mana.






domingo, 4 de dezembro de 2016

Postado no antigo blog. Data original de escrita: 20/04/2015



6 Todas as linhas convergem num nevrálgico ponto. Pode ser a luz da brasa do baseado no escuro, o ponto final no título da poesia ou aquele ponto sensível na vagina. Do ponto surgem infinitas linhas tortas que dão risada da minha cara. Na cabeça dos outros, tudo isso é uma grande bobagem. Não ponho na minha cabeça a cabeça os outros: não dá tempo.
Ouvi os xingamentos e nem dei importância. SIM tenho 23 anos (22? 24? nem lembro...) e meu quarto reflete minha mente: desordem e alguns insetos mortos. SIM, vou deixá-lo exatamente como está. Essa obsessão injustificada pela arrumação da casa no infinimilímetro. Use a régua, use duas pra garantir (a de 15 cm no cu e a de 30 na boceta ou vice- versa: seus orifícios, suas réguas). Chama do que queiras...mais alto que daqui eu não te ouço.... O QUÊ? - A régua está na segunda gaveta. Demorei muito pra perceber: enquanto tu me enches a porra do saco com essas bobagens, eu estou muito preocupada pensando nos pontos, nas crases, nos quartos, nas salas, nas pernas, nas rugas. Rugas. Muitas rugas sem régua. Eu uso pincéis pra me pintar já que réguas não tem cerdas. Gostaria de me colorir hoje, cores berrantes, isso mesmo! Aquelas que berram assim: -PSIU!!! MENOS BARULHO NESSE SILÊNCIO!!!


- Usarei alguns tons de verde, azul e carmim. O que tu achas?
- Acho que vai ficar uma bosta.
- Que fique!
- Por que não tentas o salmão?
- Sou vegetariana!
- Hilária tu hein.

Postado no antigo blog. Data original de escrita: 20/04/2015




5 Tu no meu meio e eu sentada. Experimentei uma viagem incrível num cosmos de cores. Bateu um certo pavor quando a cabeça começou a cair fora de meus domínios e a cuca bateu junto com o coração. Puta que pariu, como volta? Voltar pra quê? Ah, que maravilha essa tua língua!
Teus fios de cabelo são tão finos que preciso tocá-los com muita cautela para não arrebentá- los. E eu já nem enxergo. A testa encosta no azulejo gelado e rodopio. Rodopio por falta de palavra melhor. Sendo sincera: sou tragada do tempo e do espaço e vou caindo no nada. No fim, confiro o pulso: faltou uns fios de cabelo pra não infartar.

Postado no antigo blog. Data original de escrita 10/07/2015



4 Roubaram-me as palavras: perdi, me perdi nas línguas de falar sensações.
Roubaram-me a cara: perdi, me perdi nas caras e nas bocas, nos olhares ao alto.
Roubaram-me a alma; perdi, me perdi nessa palavra catavento cataventos cataosventos, cata a todos nós.
Roubaram-me e já não me pertenço, não me possuo, não me domino.

Ou será que fui eu que me roubei?
Ou será que eu me furtei que eu me assaltei a mão armada, nas esquinas escuras do meu bairro?
Ou será que deixei o estúpido pássaro roubar todas as vertigens, todas as migalhas, todo o aconchego do ninho?
Ou, ou, ou...

E como se administra, como se entende, como se convive com esses espaços que tomam forma, que tomam vida dotada de alma, de razão...de RAZÃO NADA!
Para a razão porra nenhuma! A solidão é esse pequeno monstro amigável que me presenteia com consciência. Eu preciso, desesperadamente, desse monstro livre, solto, de cabelos ao vento e genitálias desimpedidas.
Existe na minha pele um conjunto supremo de lacunas, de espaços com alma espírito e carne.
Carne viva e flagelada. Conjuntos dançantes de não sei mais o que deveria saber pra perguntar o que estou fazendo aqui.
Carne viva e flagelada que precisa estar só, estar em silencio; ouvir os ruídos longínquos da cidade desgraçadamente suja, despropositadamente suburbana, imbecilmente habitada, vagarosamente tomada pelo estampido de escapamentos fumegantes e fétidos
Não são mais suportáveis os ruídos dos humanos. Irritam-me. Sozinha, irrito-me.
Irrito-me pois não consigo mais ouvir meus ruídos, meus sons, meus frágeis sons. Perguntam-me o que tenho, por que ando tão quieta.A covardia me impede de responder:
- Não consigo mais falar, desaprendi vossas línguas. Não me reconheço em minha voz. Não consigo querer falar.
E como dançam minhas lacunas!
Como dançam, algo admirável!
Deixo-as invadirem os espaços já preenchidos pelos outros.E está tudo lá. E está nada lá. Eu, eu mesma, irritada e sozinha, sinto-me preenchida com o som da goteira no balde. Os sons da casa vazia me enchem...de vazio.
E como danças essas lacunas!
Algo realmente admirável!